Thursday, 24 November 2011

Caranga do Mané Galinha.


Seu Jorge, o Mané Galinha de Cidade de Deus, havia conseguido se estabelecer no cenário artístico mundial, através da música e do cinema. Não era nenhum Seal, mas era muito melhor que Alexandre Pires. De folga no Rio, resolveu dar um rolé pela cidade na caranga de 1,3 milhão de reais que mantinha guardada no posto próximo à casa da mamãe, que se recusava a deixar a favela para morar numa pequena mansão num condomínio em Jacarepaguá.

Voltando de uma boate da zona sul, Jorge foi parado numa blitz na avenida Brasil. O policial cresceu os olhos quando viu o carrão. Pediu os documentos. Tudo em dia, para seu azar (o do puliça). Mandou o pretão descer e revistou meticulosamente. Tinha certeza de que iria achar. Não achou. Apelou pro bafômetro. Jorge era crente, não bebia. Sem mais argumento, o pê-eme lançou a lanterna na cara do músico. A luz revelou que, assim como ele, Jorge não tinha antecedentes europeus. Foi a deixa para a estocada final.

- Ô negão, tu não acha que é muito preto pra tá dirigindo um carrão desse não?


Adaptação do trecho do texto "Retratos em branco e afrodescendente", de Helio de La Penã.